Onde moram as borboletas?

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Aquelas que habitavam em mim, mas não eram bem vindas
Elas se eriçavam sem medo de ser feliz, me fazendo ter palpitações e corar
Por rostos, olhares, sorrisos e palavras, não eram sempre certos e verdadeiros
Elas não eram bem vindas!

Odiava elas, e por isso elas foram embora?
Cansaram de viver escondidas, cansaram de serem em excesso,
Cansaram de não serem cuidadas, cansaram de voar por erros,
É possível sentir falta de algo que se odiava?

O que pode ser pior que senti-las demais
Não sentir nada?
Acumulo ou falta?

Onde elas moram?
Talvez se foram com aquela menininha sentimental demais que estava aqui
Talvez foram abafadas pouco a pouco, ano a ano, decepção a decepção, sem perceber

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Texto: Cassia Matias

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Ana Maria – Parte III

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Parte III

Ana saiu do trabalho, enfrentou suas filas –com um humor um pouco melhor- tomou seu banho, colocou um vestido diferente, daqueles dos últimos cabides, que nunca usava, mas decidiu usar hoje para ir ao encontro de João. Ele já a esperava sorridente, se cumprimentaram e sentaram para conversar, comeram ou beberam qualquer coisa, Ana nem viu o tempo passar e achou que bateu o que seria o recorde sem fumar, mas no caminho de volta fumou caminhando ao lado de João, que dizia não se importar. Parados em frente ao prédio de Ana, ele lhe deu um longo e apertado abraço de despedida e ela percebeu que ficou com seu cheio na roupa.

Ao chegar em casa, Ana percebeu ser de madrugada e já estava bastante cansada do dia longo, mas era estranhamente um cansaço bom. Após um banho um pouco mais curto, a moça caiu no sono e só acordou bem tarde no outro dia, com o celular tocando. Era Felipe, se dizendo preocupado com o sumiço incomum ao seu café de rotina aos domingos com ele, Ana se esqueceu totalmente –  e como pode se esquecer de algo rotineiro? – Se desculpou e disse que acabou dormindo um pouco a mais, o que era verdade.

Felipe entendeu e se estendeu mais no assunto, percebendo que eles se viam todas as semanas, mas não sabiam nada além do telefone um do outro, nem endereço ou nada do tipo, não se permitiam entrar no mundo um do outro, Ana concordou surpresa com o papo, e combinaram de um dia qualquer, sem falta, irem um na casa do outro.

Na semana seguinte, João a convidou para ir até a sua casa para um jantar, Ana pensou em recusar por não o conhecer tão bem assim, quanto gostaria, ou por qualquer insegurança que surgia em sua mente, e para acalmar seus pensamentos, passou em sua cabeça que mesmo sendo um semi estranho, era a pessoa com quem ela queria estar, então resolveu aceitar.

Chegando lá percebeu que o apartamento de João era tão pequeno quando o dela, porém com mais moveis e mais bagunçado. Percebeu também que a comida era comprada, mas fingiu não se importar, pois a decoração era acolhedora e o vinho estava maravilhoso.

Depois de tempos de conversas e risadas, a comida já havia acabado e o seu rosto e o de João já estava ruborizado pela quantidade de vinho que eles consumiram. E em um momento ele se aproximou e afagou seus cabelos enquanto seus olhos se encontraram de um jeito que para Ana, pareciam apaixonados e ele a beijou. O beijo foi longo e envolvente de um jeito diferente. Ela gostou. E naquela noite foi a primeira noite em que passaram juntos.

E assim se repetiu durante algum tempo, aos fim de semana saindo com João para um lanchonetes, praça, cinemas, sempre finalizando a noite no apartamento dele. E nos dias de semana, corrido para os dois, restavam telefonar um ao outro ao fim da cada dia. E Ana, por mais que tivesse um relacionamento de amizade com Felipe, ia cada vez menos aos cafés de domingo e consequentemente, recebia cada vez mais ligações do amigo, que surpreendentemente se tornava cada vez mais amigo, mesmo estando mais distantes, Ana agora o escutava falar sobre o seu dia e se sentia cada vez mais a vontade para contar sobre seu trabalho, pensamentos e sobre João.

Continua…

Texto: Cassia Matias

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Leia aqui a Parte I e a Parte II.

Ana Maria – Parte 2

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Parte II

 Ana se percebia a cada dia mais automática e a vida cada dia mais sem sentido, mas não tinha animo e nem como reagir a isso, então continuava a seguir aquela mesma rotina de sempre, porque a vida algum dia sequer já teve algum sentido? Passava essa e mais algumas perguntas em sua cabeça quando fumava seu cigarro tranquila em sua pausa da tarde até que ouviu um cara de moto parado no meio fio chamando ela, com “moça…moça” e interrompendo sua inercia em pensamento, Ana já o odiou a partir desse momento, mas mesmo assim, foi até lá ouvir o porquê ele a chamava. Ele, João, só queria pedir uma informação, era motoboy a pouquíssimo tempo e ainda estava um pouco perdido naquela imensa cidade, mas ao pedir informações aproveitou para dizer a Ana o quanto ela era bonita e pediu seu telefone, Ana, que tinha odiado João por interromper seus vagos pensamentos, achou bastante abusado o elogio, e corou levemente, mas achou que não perderia nada com isso e passou o número de seu humilde celular para João, e aquele dia Ana sorriu e o sol se pôs diferente.

 O banho quente ao chegar em casa foi mais curto, o que sobrou um tempo vago sentada a mesa de pés no chão, cabelo molhado e cigarro na mão, e Ana usou esse tempo despretensiosamente para pensar que um momento pequeno que seja que foge minimamente da rotina, a fazia pensar e sentir um diferente que mal conseguia se auto explicar, mas que trazia um quentinho raro ao peito. E não conseguiu deixar de pensar em João, e no vago e misterioso tempo que imaginou entre o momento em que ele ligasse até serem bastante próximos, ou até um possível fim de um possível relacionamento. Naquela noite João não telefonou e Ana por esse ou qualquer outro motivo, foi dormir se sentindo mais confusa do que costume.

O dia seguinte começou e seguiu rotineiro, e a moça mais nada sentiu, até seu celular vibrar em cima da mesa com o nome de João, e passou pela cabeça não atender simplesmente, mas foi até o toalete já que faltava algum tempo até sua pausa. Ana atendeu sem graça, fechando a porta atrás de si, e quando mal percebeu já estava rindo e conversando com ele naturalmente, tendo uma conversa que realmente se interessava como a muito tempo não acontecia.

João era simpático, comunicativo e muito bom em puxar papo e fazer piadas, recente na cidade, passava tempo demais sozinho e achou que seria uma boa ideia ligar para Ana. Ela sorria bastante e o som de sua risada era bonito aos seus ouvidos. Marcaram de se encontrar sábado próximo.

Continua…

Texto: Cassia Matias

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Leia a parte 1 aqui  ]

Ana Maria.

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 Parte I

Ana conseguiu emprego no centro de cidade faz duas semanas, em um cômodo pequeno e escuro no decimo segundo andar, no qual todos chamavam de escritório. Por mais que Ana tentasse, ela sempre chegava de 13 a 22 minutos atrasada de seu pequeno apartamento do outro lado da linha norte do metrô da cidade e tinha que encarar a cara feia do Sr, Elias, seu chefe, que era pior do que o desconto que vinha no seu salário no fim do mês. Os seus dias começavam assim, e depois ficava horas sendo máquina banhada de café, o que a fazia ficar mais ansiosa por falta de seus cigarros.

Para depois poder comer no pequeno e lotado restaurante do prédio, esse ficava no primeiro andar. Ana conseguia ficar na fila do elevador para descer, na fila da comida e na fila do elevador para subir até dar seus contados minutos de pausa. E lá vem mais horas sendo robô com café até poder fazer uma pausa desprogramada para descer para fumar, isso porque Sr. Elias a teria feito escolher apenas um horário para isso, e por mais que isso custasse para ela manhãs ansiosas e horríveis, Ana ainda preferia desfrutar de seu cigarro olhando o sol ir embora em meio aos prédios. Para depois passar algumas outras horas de máquinas até dar o tão esperado horário da saída. Que significava também a fila do elevador e a fila do metrô até poder ficar parada em baixo de seu chuveiro quente para sair o cheiro de mofo que Ana insistia que ficava após ficar tantas horas parada, como os móveis velhos dentro daquele cômodo velho.

E assim passa seis dias e meios de sua semana, e o pouco que lhe sobrava, a faltava companhia para aproveita-lo como deveria, é claro que tinha a simpática senhora da padaria onde Ana passava aos sábados à tarde para comprar pão e cigarro e acabava conversando sobre o tempo, as notícias ruins ou sobre qualquer outro assunto raso. E tinha também o Felipe que a convidava para tomar café nas manhãs de domingo, na qual Ana sentava, acendia um cigarro e se fingia interessada em tudo que Felipe dizia, mas na verdade estava com a cabeça longe, viajando em seus próprios pensamentos, e as vezes até sorria e concordava com a cabeça para se parecer interessada, sem sucesso, mas Felipe não reparava ou não se importava, ele só ficava ali falando, tomando seu café e apreciando a companhia dela. Felipe odiava cigarros, e já tinha dito isso a Ana, e foi só mais uma das coisas que Ana deixou passar sem ouvir, enquanto fumava seu cigarro em paz.

Felipe era um homem solitário, vinte anos mais velho que Ana, a considerada também uma das poucas companhias que tinha.

Continua…

Texto: Cassia Matias

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Ainda me lembro…

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Bom o tempo que passo sobre a janela pingada de chuva, em tempo frio, na companhia de meu quinto ultimo cigarro do dia e com um chá de alecrim quente. Pensando em paz sobre minha vida e o que se passou por ela.

Como o dia em que vimos o sol se por naquela praia vazia, com aquele vento frio, depois de um dia cheio e estressante de trabalho e o quanto aquilo nos tranquilizou. Ou quando dançamos uma música que nem conheço, bêbados no meio da nossa sala, com altas gargalhadas das danças tortas e desengonçadas. Da vez que peguei no sono em seus braços enquanto você lia seu livro de poesia do seu poeta preferido. Quando brigamos e nos reconciliamos depois de cinco minutos, muito mais apaixonados. Da vez em que pegamos chuva na volta pra casa e aquilo lhe rendeu uma gripe daquelas.

Estranho que sempre essas lembranças que me vem a cabeça de primeira, elas são as mais vivas, claras e felizes, as que sempre me lembro, mesmo tendo as vivido a mais ou menos quarenta e sete anos atrás.

 

Texto: Cassia Matias

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Em Uma Cafeteria Qualquer…

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(…) e de repente saio de inercia e me vejo sentada sozinha, o café já está frio e mesmo não querendo admitir acho que nosso amor também deixou a quentura de lado. Você não apareceu e eu sabia que não viria, mas, não pude deixar de ter esperanças. Aquilo tudo foi real e intenso não só pra mim, tenho certeza. E eu, tola que sou realmente achei que viria me encontrar em nome de tudo que vivemos. Só percebi ter lágrimas quando algumas pessoas passaram olhando em meu rosto. Não posso chorar. Não posso chorar. Repetia em pensamento enquanto limpava o rosto com pressa e pagava o café frio em que não tomei e que você não tomou, para se chorar, chorar em outro lugar. Ajeitei a franja e arrumei a postura para transparecer uma força inexistente. Sai andando e dobrei a esquina com destino a te esquecer de uma vez por todas.

-Por favor, você viu uma moça baixa com franja nesse café? – disse fadigado, um moço atrasado para o seu feliz para sempre.

Texto: Cassia Matias

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